Créditos da fotografia: Fernanda Magalhães

 

Bom dia, bom dia! A manhã acordou cinza, mas meu coração tá azul.

Esses dias tem chovido bastante no cerrado. Aproveitei o final de semana e vim ficar uns dias aqui na fazenda. Amo esse cheirinho de terra molhada, as plantas, arvores, todas com uma beleza sutil cheia de fertilidade. Consigo ver a sensualidade delas se insinuando uma para as outras

A ultima vez que estive aqui foi em 2015 minha mãe, tios, avos, primos, todos reunidos. Já estávamos todos preocupados com a minha mãe devido a quimioterapia que havia iniciado. Mesmo sofrendo com a antecipação com tudo que poderia vir pela frente, eu acreditava que tinha um escudo, que ele ia segurar a minha mão até o final.   Meu coração estava calmo, feliz, sorrindo, sonhado, fazendo planos. Meu sorriso era espontâneo como de uma criança. Meu olhar pra vida ainda era ingenuo.

Me faço mil perguntas, mil questionamentos. O que deu errado? Onde? Como? Quando?

Passado, passado, passado.

Presente…

Hoje vou escrever sobre
meus demônios

Finalmente, escrever que, para mim, começou por uma vaidade, por uma vontade de ser, hoje transfigurou-se. elevou-se. É mais que uma necessidade explosiva de dizer o que cala a minha voz; necessidade mais que real de me esvaziar, de fazer percursos internos, caminhar pelos meus labirintos. Desnudar-se.

Hoje eu quero desnudar minha alma. Hoje quero, e preciso, falar dos meus demônios. Esses que tento driblar nos momentos de solidão, mas que inevitavelmente são parte de mim. Ainda bem.

Confesso que eu sempre tive medo de errar com os outros, e o meu perfeccionismo me levou às percepções mais nítidas de mim mesma, na hora da queda. Conto nos dedos de uma mão – e não me orgulho mais disso – as vezes que me permiti a um ato falho, a um ato que sequer pudesse machucar alguém; as vezes que aconteceu, me pesam até hoje. A culpa me é um fardo enorme. A minha consciência, que não sei se nasceu comigo ou construiu-se devido às minhas experiências, foi se tornando meu maior e principal inferno.

Eu vejo tudo, revelo tudo, percebo tudo e, consequentemente, tudo me estar suscetível ao cansaço, à monotonia. Porque por trás das coisas, eu vejo: há quase sempre uma intenção que tira todo o encanto e toda a naturalidade das coisas. Assistir a existência dos outros virou uma atividade tão rotineira e comum, nada de novo e surpreendente, tudo vaidade.

Essa consciência que me arruína, que me dói, me faz chorar encolhida, chorar até a cabeça doer e os olhos cansarem, chorar sem entender por que fui dotada de uma visão tão real, que não permite enganar-se, que me fez real demais, também. Tudo que me é ou está, é e está com uma intensidade que não cabe no papel. Meu refúgio, portanto, foi o isolamento, por me sentir elevada demais, superior demais. Meu refúgio passou a ser a busca pela naturalidade, pela essência dos outros, por aquilo que se manifesta despretensiosamente… e foi ficando cada vez mais escassa a troca de energia real e vital, pulsante e colorida; foi ficando cada vez mais difícil me encontrar em sintonia com alguém, de me sentir completamente acolhida. Foi ficando cada vez mais difícil acreditar em algo que não saísse aqui de dentro, e a auto-suficiência foi me cegando, me mantendo numa linha tão egoísta e individualista quanto aqueles que eu julgava.

Esse isolamento, construído sem que eu dessa conta, foi me levando a um estado em que nem eu mesma mais suportava ser ou estar em mim. Fui perdendo a capacidade de ver a beleza, de apreciar, de admirar as pessoas que iam surgindo na minha vida e, consequentemente, eu perdi muita coisa, deixei de me permitir a muita coisa… a vaidade de sentir-se melhor, por ingenuidade; porque a vida inteira foram me dizendo que eu era especial e diferente demais, forte, inteligente, madura, líder,  poderia carregar qualquer fardo, por mais pesado que fosse, e eu acreditei. Acreditei e aceitei sem questionar, do jeito errado, revertendo, caindo na armadilha do ego; acreditei tanto que me tornei solitária; solitária na minha perspectiva, porque de fora, tudo parecia estar muito bem.

Com o tempo, a minha intolerância me desconfigurou, me tirou a sensibilidade de ouvir e sentir, de reconhecer a importância das pessoas; esse movimento aconteceu só aqui dentro por meses, anos, sei lá, sem que eu revelasse pra ninguém, ( salvo para ele o meu escudo, o único pra quem me desnudei de alma e dos meus medos)porque eu não podia ser falha, deveria me manter esse deus a ser adorado.

A minha solidão doía mais que qualquer coisa imaginável porque os elogios que me chegavam, me atravessavam e me feriam, eu tinha a impressão de que ninguém me conhecia de verdade, de que eu era amada só pelo que tinha de melhor. Em contrapartida, o meu melhor me afastou de todo mundo… agora entendo que é o meu pior que me humaniza e me aproxima, mas ele nunca foi revelado a não ser para os meus diários. Tantas vezes queimei meus diários com o objetivo de renascer daquele pó, ser outra.

Não entendia que para ser outra, eu precisaria antes de tudo me ver e me amar; abraçar meus demônios, unir meus lados que divergem, me perdoar. Queimei meus diários sempre como atos de profundo desespero, porque não era mais suportável. Não me permiti ser parte deste mundo, e não sei se me exclui ou se o mundo me excluiu, mas muitas vezes senti que, quando não causava amor e admiração, causava sentimentos reversos como medo, espanto, raiva, muita raiva.

Confesso que nada disso era consciente ou premeditado. Perceber que minha capacidade de lidar com tudo tão bem incomodava tanto determinadas pessoas, me fez questionar. Me levou a querer navegar nesse oceano turbulento que sou, mas navegar segurando a mão de alguém. Mas quem? Isso me levou a conflitos muito dolorosos. Só sei que agora dói muito me ver tão nitidamente humana, e sinto medo. Na verdade, sempre foi o medo. Medo de não ser abraçada pela outra versão de mim.

Sempre quis fazer tudo bem e não machucar, investi sem perceber meu tempo a ser boa em tudo e superar os limites que nem sequer conheci porque sempre achei que podia tudo, que tudo para mim era possível, bastava eu querer. E a vida foi se revelando assim, se mostrando fácil talvez como recompensa pelas tantas dores do caminho, ou pura armadilha.

Não sei.

A tudo que me dediquei, consegui sem muito esforço. Sorte ou simplesmente resistência ao mérito – o que revela ainda mais o outro lado de mim: inseguro, medroso e inibido. O lado que conflitua, que diverge, que me expõe à pequenez. O lado que precisa dar as mãos com a minha outra parte, que não deixa de ser real, mas que não só isso.